Quem sou...

É difícil dizer como você realmente é, pois nós somos "coisas" diferentes de acordo com a maneira que as pessoas nos veêm, então você, meu leitor, após ler pelo menos dois de meus posts, diga-me o que você enxerga de seu ponto de vista privilegiado, a fim de ajudar-me a saber quem eu sou.

domingo, 16 de junho de 2019

Sonho Vermelho

Comecei a andar pela rua logo cedo e depois de muito tempo na vida, eu senti medo. Todos os olhos que cruzavam com o meu pareciam me julgar. Mas será que eles sabem? Será que e o que eu fiz foi tão grave assim? Acho que não, é apenas loucura da minha cabeça.
Decidi seguir em frente e focar nas tarefas a serem feitas naquele dia: "Dentro de alguns dias é o meu aniversário de namoro e certamente ela vai querer de algo especial, então depois de preencher toda aquela papelada no escritório e finalmente alcançar o horário de almoço, passo no shopping e compro um presente extra". No ano anterior à aquele levei-a à um restaurante italiano, com música romântica ao vivo, vinho e um ambiente iluminado principalmente por velas, tudo aquilo ressaltou sua beleza de uma maneira que eu não sei explicar. "Esse ano quero fazer alguma diferente, algo de autoria própria além do presente que já vou comprar", durante o pensamento arquitetei toda a surpresa que faria.
Droga! Havia fechado o plano e não tinha mais nada pra ocupar a cabeça, instantaneamente minha mente foi invadida pelas lembranças dos últimos dias: o lençol sujo de vermelho, aquele corpo branco cheio de sardas deitado de costas pra mim, cabelos ruivos, os vidros quebrados, gritos, risos, choros, música alta, uma multidão, luzes, brilhos, olhos e olhares, tudo se passando rapidamente como se fossem fotografias. Com isso mudei o caminho para o trabalho e só percebo depois de já ter passado dois quarteirões do trajeto original, isso significou dez minutos de atraso.
Já no trabalho eu sabia exatamente tudo o que deveria fazer, mas como toda a tarefa era bastante solitária, era impossível eu me concentrar e não tirar da cabeça todos os pensamentos que estavam me perseguindo, obviamente eu não consegui terminar o que deveria fazer, como consequência disso tive que continuar trabalhando durante o horário de almoço, visto que aquele trabalho deveria ser entregue até as 01:00 P.M.
Meu telefone toca, não reconheço o número; atendo e ouço aquela voz inconfundível: "Oi, tudo bem? Pode falar?". Respondi afirmativamente, meu coração acelerou de um modo inexplicável, novamente lembrei da noite anterior. "Você saiu sem se despedir, queria saber se está tudo bem. Quando podemos nos ver novamente?". Hesitei, não consegui responder prontamente, como dizer que eu amei a noite que tivemos, mas ao mesmo tempo não poderíamos repetir? Como explicar que eu amo duas pessoas, mas assinei um contrato de dedicação exclusiva? Só consegui responder "Estou bem sim, cheio de coisas pra fazer no escritório. Desculpe por sair sem falar nada, não queria acordar você. Podemos marcar algo pra semana que vem?".
Pronto, havia colocado mais lenha numa fogueira que já era grande o suficiente para ser controlada. Os detalhes daquela noite vieram à mente.
"Decidi que voltaria à cidade onde fiz graduação para participar de uma das maiores festas universitárias que existem, apenas para reencontrar com meus quatro melhores amigos e matar a saudade. Era apenas 1 hora de viagem. Nos encontramos já dentro da festa e sem muito tempo para conversa, começamos a beber, dançar e cantar. Nos encontramos com outro grupo de pessoas que nunca havíamos visto antes, mas que pareciam muito legais. Mais festa, mais bebida, mais música. Dentre o grupo novo havia um rapaz, chamado Murilo, confesso que o invejei por um tempo. Corpo musculoso, cabelo ruivo, pele clara, com certeza ele se destacaria em qualquer lugar que passasse. O jeito que ele dançava era diferente, conseguia seduzir sem usar uma palavra, ao ponto de me hipnotizar por alguns minutos. Ele percebeu, certamente percebeu. A festa estava quase acabando, Murilo pegou a minha mão e simplesmente começou a andar, eu não resisti nem por um segundo, enquanto andávamos aos tropeços percebi que seu corpo estava sujo com corante vermelho que foi jogado na festa, minha roupa também. Chegamos em algo que parecia uma república, certamente havia acontecido alguma festa lá no dia anterior, entramos e quando percebi, já estávamos nos beijando. Pela primeira vez na vida eu estava beijando um homem, confesso que gostei. O que veio depois, foi uma das melhores noites da minha vida."
Será que minha namorada iria me perdoar? Foi uma traição? Certamente foi, mas ele tem algo que ela jamais terá e ela tem algo que ele jamais terá.
Onde estou? Abro os olhos, mas não me levanto. A janela está aberta, o céu está aberto, vazio de nuvens, mas tão cheio de si, cheio de paz e calmaria. Ele transmite esse vigor por conta de sua cor, que mexe com os sentimentos do mais duro ser humano.
Agora sim, decidi levantar, fui até aquela janela e além do céu vi o mar, que também era azul. Momentaneamente senti inveja dos peixes e algas marinhas, que podem usufruir da água além de ser aquecidos pelo Sol; podem ser livres ir para onde bem entenderem sem o dever de dar satisfação de sua vida; sem medo do julgamento alheio, que servem mais para aumentar os níveis de tristeza e ansiedade que já são demasiados.
Quando me dei conta, já se havia passado mais de 30 minutos de devaneio perante uma janela; infelizmente aquela janela com grades será a mesma que verei nos próximos 15 anos, espero que quando eu sair daqui, toda a liberdade que eu almejo, possa ser aproveitada.