Ando pela rua deserta, não sei bem o que estava fazendo, mas sei que meu corpo não obedecia mais os meus comandos. Mesmo com o frio imenso que fazia, e os flocos de neve cada vez maior que caiam sobre meus ombros e ate mesmo os anúncios na TV pedindo que não saíssemos de casa.
Meu corpo, um boneco de neve ambulante, só queria saber de andar ,cada vez mais ofegante mais rápido, mais sem rumo e sem destino, já que as ruas estavam cada vez mais iguais, mais brancas, mais sem identificação.
Então, quando enfim me dei conta do quanto era inútil aquilo tudo, caí de joelhos no chão, e vi o gelo, em alguns pontos, se derreter com as gotas salgadas que meus olhos liberavam. Eu precisava ir ao encontro dela, e me explicar, falar tudo que eu sempre senti, mas nunca tive coragem de dizer, tudo que tive de remoer ao vê-la com outros garotos, que não gostavam dela mais do que eu. Me senti um fraco e impotente.
Mas agora o que poderia fazer? O seu voo sairia em vinte minutos, e eu provavelmente não a veria novamente.
Nesse momento um turbilhão de imagens se passaram pela minha cabeça, a primeira vez que segurei em sua mão e olhei firmemente em seus olhos verdes, o nosso primeiro bolo que fizemos juntos, as cartas trocadas, os abraços fraternais, o dia dos namorados sem namoradas que passei e que ela, para não me ver triste, me enviou um cartão surpresa e sem denominação. Ela não intendeu a minha repugnância e o descontentamento, eu queria não um cartão ou um admirador, eu queria a ela só ela. Mas depois que descobri o verdadeiro destino daquele cartão vermelho, com um perfume doce e entorpecedor, com uma textura fina e macia, aí sim, só depois que meu coração entendeu o que se passava que ele pode pular de alegria e voltar a bater mais forte.
Depois que nossa vida passou em minha cabeça, reparei que todo o caminho que já havia feito antes de cair de joelhos, me deixaram frente à minha casa, aquela simples casa de dois andares, janelas com cruz que formavam quatro quadrados, o telhado com os dois caimentos para os lados e a chaminé do lado direito que ainda soltava fumaça da lareira, a porta de madeira rústica estava aberta e então decidi entrar e me esquentar novamente.
A aquela altura ela já devia ter voado e ido embora. Ligo a TV:
"Os vôos do aeroporto internacional foram todos cancelados, por conta da grande nevasca. Isso pode trazer um grande problema para o país, já que essa nevasca não tem previsão de acabar...."
Que se dane os problemas econômicos, o que importava era que ela não tinha voado, e que ainda restavam esperanças....